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Do risco de se perder dos filhos quando a adolescência chega

Há sempre o risco de se perder dos filhos quando a adolescência chega. Este é um período extremamente delicado para toda a família. Para o adolescente, que está passando por uma série transformações físicas, emocionais e sociais, para os pais que têm aprender como desenvolver um relacionamento com uma pessoa completamente diferente daquela criança que estavam acostumados a lidar.

Fatalmente nessa fase, é comum acontecer algum afastamento entre pais e filhos. Os jovens se isolam porque querem autonomia, querem se desgarrar do sentimento de dependência dos pais e projetar uma imagem de auto-suficiência. Ou sentem-se incompreendidos. Ou simplesmente querem ficar consigo mesmos. Ou tudo isso junto.

Os pais, que estavam acostumados com uma criança que minimamente obedecia suas ordens, muitas vezes não sabem lidar com os surtos de independência e autonomia da cria. De repente se deparam com um mini adulto, cheio de vontades, questionando, rejeitando suas intervenções e arrumando problemas. Uma criaturinha que antes se conhecia como a palma mão e que de repente não quer mais ninguém por perto, se isola, fica voltado para coisas que você não conhece ou não se interessa.

Ou então a criança vai se tornando um adolescente “exemplar”, “que não dá trabalho”, simplesmente porque não apresenta demandas, se vira sozinho e “é responsável”, e os pais acreditam que não há necessidade de zelar por eles porque eles “estão bem”. E ainda, simplesmente os pais não se interessam mais tanto pela pessoa adulta que o filho vai se tornando. Que não é mais uma criança fofa e graciosa que os idolatrava cegamente. E dão sua participação na educação do jovem meio que por concluída.

É compreensível que haja também um certo alívio por finalmente ver terminada fase de maior dependência funcional e ser possível algum descanso para os pais, já que minimamente aquela pessoa que dependia de você para tudo, agora se banha, come sozinha, e veste-se sem ajuda. E aí na correria da sobrevivência, muitas vezes é difícil abrir mão da aparente calmaria para ficar investigando como está a performance do filho no planeta adolescência.

É muito difícil sim.

Por outro lado você tem o adolescente. Que até pouquíssimo tempo mal limpava a bunda sozinho. Está crescendo, o corpo está mudando. Talvez fisicamente já esteja quase tão desenvolvido como um adulto. E isto o confunde. O mundo (inclusive os pais) muitas vezes o cobra como se fosse um adulto, mas o restringe como se fosse uma criança. Isto o angustia. A mídia não ajuda. Essa criança acha que cresceu, que sabe muito. Mas ela se sente terrivelmente só e perdida. É um ser híbrido. Que não recebe mais o mesmo carinho, atenção e ponderação que recebia quando era criança. Mas também não recebe o mesmo status, deferência e consideração dos adultos.

Este ser intermediário, chamado adolescente, é um poço de medos e alegrias. Começa a conquistar o mundo sem ainda ter tantas responsabilidades. E tem o mundo lá fora. Esperando tanto dele. Tem as outras pessoas e suas expectativas. Tem os padrões toscos de feminilidade e masculinidade. Um adolescente é o retrato do medo da rejeição. É um bicho trocando de casca, absolutamente frágil. Ele não sabe ainda o que está se tornando. Está vulnerável, tem medo de não ser querido. Medo de decepcionar pais. Medo de não ser aceito pelos amigos. Medo de não estar se tornando um novo bicho bom e belo, com uma carapaça forte o bastante para seguir sobrevivendo.

Seu filho adolescente precisa de você. Talvez tanto ou mais do que quando era um bebê indefeso. Ele precisa saber que ainda é amado mesmo mudando. Que será amado não importa o que ele se torne.

É tão fácil se perder dos nossos filhos quando eles são adolescentes. Eles fogem dos pais e se refugiam longe. É tão fácil não estabelecer diálogo, não criar intimidade, não participar do seu mundo. Ver o tempo passar e de repente ter um adulto completamente desconhecido ali morando na mesma casa. Que sequer consegue ser seu amigo. Que sequer consegue sentir-se pertencendo àquele núcleo familiar.

As experiências que temos na adolescência são tão determinantes para a nossa vida. Tão indicativas sobre nossos vícios e virtudes. As influências que recebemos são tão decisivas. O professor que nos encanta e faz com que apaixonemos pelo curso que vamos fazer na faculdade. A primeira paixão. Os amigos que fazemos ou não conseguimos estabelecer.

Quanto medo, insegurança, depressão, baixa-estima, vícios, se instalam justamente nessa época da vida?

Quantos relacionamentos abusivos, assédios?

Quantos suicídios? Distúrbios alimentares?

Adolescentes não são mais crianças. Seus corpos estão mudando, eles têm desejos, capacidade de performar de maneira autônoma para cuidar de suas necessidades básicas pessoais. Tampouco adolescentes são adultos. Eles não tem experiências, parâmetros, conhecimento, amadurecimento emocional. E estes jovens estão absurdamente sozinhos. Desorientados. Desassistidos. Buscando respostas no Google para suas dúvidas e temores.

Há um certo vácuo geracional criado pela rápida disseminação das tecnologias de comunicação nos últimos anos. Os pais de adolescentes de hoje são ainda bastante analógicos e podem não ter uma noção clara dos desafios enfrentados pelos filhos que são bem diferentes dos desafios que eles enfrentaram. É um mundo nudes, exposição de intimidades, bullying virtual, hackeamento. Um mundo em que a rede de amigos é virtual e é na casa de centenas de pessoas. Em que com um clique um mundo de informação instrumentaliza esse adolescente sobre o tema que ele tiver interesse. Para o bem e para o mal. Possibilidades ilimitadas.

Os pais precisam estar próximos mais do que nunca. E vigilantes também. Atentos. Participativos. Ajudando esse jovem a transitar no mundo fortalecendo seus valores. Esse é um momento da educação parental em que todos os valores recebidos vão ser testados e reforçados ou renegados. É um momento em pais em filhos podem se aproximar e estabelecer uma relação de parceria definitiva ou se afastar. E não falo de se tornar “amigo” do seu filho adolescente, e sim de manter-se firme numa relação de carinho, aceitação e orientação, que permita que esse jovem saiba, acredite e aceite que os pais estão lá por ele.

Não se afaste do seu filho só porque ele cresceu, ou já que ele cresceu. Esteja lá por ele. Ele precisa muitíssimo de você, acredite. Talvez, mais do que nunca. Não se perca dele. Mantenha-o aconchegado, acolhido, protegido pela certeza de que você o ama e o aceita.

Por mais difícil que seja.

Cila Santos

https://cilasantos.medium.com

Escritora, feminista, mãe e ativista pelos direitos das mulheres e das crianças. Criadora do projeto Militância Materna, falo sobre feminismo, maternidade e infância, disputando consciências por um mundo melhor. Vamos juntas?

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